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Checklist de enfermagem para reduzir eventos adversos na UTI

Em uma unidade de terapia intensiva (UTI), parte dos eventos adversos nasce de um ponto previsível: a rotina. Ventilação mecânica e monitorização hemodinâmica envolvem tecnologia, múltiplas interfaces e decisões rápidas, mas também dependem de tarefas repetitivas, documentadas e executadas de forma consistente em cada troca de plantão.

A literatura e os protocolos convergem em um princípio simples: padronização reduz variabilidade, e variabilidade aumenta risco. Não por acaso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trabalha com bundles e indicadores de vigilância para infecções relacionadas a dispositivos, incluindo pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV).

O custo assistencial de falhas é alto. A PAV é monitorada por densidade de incidência e faz parte dos indicadores de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) em UTI no país, com orientações técnicas atualizadas pela Anvisa para a vigilância em 2026.

O desafio para a enfermagem não é saber o que fazer em teoria. É garantir que o essencial seja feito sempre, principalmente quando o paciente ventila mal, quando a sedação muda, quando o vasopressor sobe e quando o plantão está no limite.

Por que checklist funciona na UTI

A Anvisa define bundle como pacote ou conjunto de práticas baseadas em evidências que, quando realizadas coletivamente e de forma confiável, comprovadamente melhoram os resultados para o paciente. Em termos operacionais, um checklist é a forma mais direta de transformar esse conceito em execução diária, com rastreabilidade, auditoria e correção rápida.

No caso da ventilação mecânica, o checklist serve para atacar duas frentes: prevenção de complicações infecciosas e redução de eventos relacionados ao dispositivo e ao manejo, como extubação acidental, falhas de cuff, aspiração e atraso no desmame.

Na hemodinâmica, o checklist reduz um tipo de erro ainda mais traiçoeiro: o dado falso confiável. Uma linha arterial mal nivelada, um transdutor fora de zero ou alarmes ajustados de forma inadequada podem induzir condutas erradas com aparência de precisão.

Checklist de enfermagem para ventilação mecânica

A seguir, um modelo de checklist prático para uso por turno e com revisão diária, alinhado a recomendações mínimas presentes em materiais da Anvisa para prevenção de PAV e boas práticas de segurança.

  • Antes e imediatamente após intubação (ou admissão já intubada)
  1. Fixação e posicionamento do tubo orotraqueal: checar marcação em centímetros e registrar.
  2. Pressão do cuff dentro da meta institucional e registro. Protocolos de prevenção de pneumonia assistencial frequentemente incluem monitoramento do cuff como rotina de segurança.
  3. Cabeceira elevada entre 30º e 45º, salvo contraindicação clínica.
  4. Circuito, filtros e umidificação checados, sem condensado em posição de risco para aspiração.
  • Por turno

  1. Higiene oral conforme protocolo institucional. A Anvisa inclui higiene oral entre os componentes mínimos orientativos em materiais de prevenção de PAV.
  2. Aspiração de vias aéreas com técnica adequada e avaliação de necessidade, evitando manipulação excessiva.
    7. Avaliação de sedação, dor e sincronia paciente-ventilador, com registro e comunicação estruturada ao médico e à fisioterapia. A Anvisa descreve despertar diário como estratégia programada para manejo da sedação e avaliação de prontidão para desmame.
    8. Integridade da fixação e risco de lesão por pressão em face, com proteção e reposicionamento conforme necessidade.
  • Revisão diária, preferencialmente em round multiprofissional

  1. Necessidade de manter ventilação mecânica invasiva e oportunidade de teste de respiração espontânea quando aplicável. Materiais da Anvisa apontam o questionamento diário sobre necessidade de suporte e o teste de respiração espontânea como componentes relevantes.
    10. Meta de desmame e plano das próximas 24 horas: parâmetros de ventilação, fisioterapia respiratória e segurança para extubação.

Checklist de enfermagem para monitorização hemodinâmica

Aqui, o objetivo é duplo: garantir qualidade do sinal e garantir leitura clínica útil. Em pacientes com sepse e choque séptico, por exemplo, diretrizes internacionais recomendam alvo inicial de pressão arterial média (PAM) de 65 mmHg em adultos em uso de vasopressores. O checklist ajuda a evitar que um alvo correto seja perseguido com medida errada.

  • Por turno, em monitorização invasiva (linha arterial)
  1. Nível e zero do transdutor conferidos e documentados após mudanças de decúbito ou transporte.
  2. Curva arterial avaliada: amortecimento, artefatos, alarmes e integridade do sistema.
  3. Sítio de inserção inspecionado: sangramento, dor, sinais flogísticos, perfusão distal.
  • Por turno, em monitorização com cateter venoso central e suporte vasoativo
  1. Patência de vias e identificação clara de lúmens, com rastreio de infusões críticas.
    5. Balanço hídrico e diurese com meta definida e sinalização precoce de queda de débito urinário.
    6. Perfusão periférica: temperatura, coloração, enchimento capilar, nível de consciência, tendência de lactato quando disponível e conforme protocolo institucional. Diretrizes de sepse incorporam marcadores de perfusão como parte do acompanhamento.
  • Revisão diária
  1. Metas hemodinâmicas pactuadas com a equipe: PAM alvo, estratégia de fluidos, vasopressor e critérios de desmame.
    8. Segurança de dispositivos: necessidade de manter cada acesso invasivo e plano de retirada quando possível, reduzindo exposição ao risco.

O que transforma checklist em redução real de eventos

Checklist não pode ser papel preenchido. Três condições fazem diferença:

  • Treinamento e linguagem comum
    A equipe precisa entender por que cada item existe e o que muda quando ele falha. Sem isso, o checklist vira burocracia.
  • Auditoria rápida e devolutiva
    Se cabeceira, sedação e teste de respiração espontânea não estão sendo executados com consistência, a unidade precisa enxergar o desvio em poucos dias, não em uma revisão semestral. A Anvisa, ao estabelecer orientações e indicadores, reforça a lógica de monitoramento sistemático.
  • Integração com round multiprofissional
    Ventilação mecânica e hemodinâmica não são territórios de uma categoria. São processos interdependentes. O checklist funciona melhor quando costura decisões com médico, fisioterapia e enfermagem, com registro que vira referência de plantão para plantão.

Capacitação em Enfermagem

O programa da pós-graduação em Trauma, Urgência, Emergência e Terapia Intensiva do Instituto Enfermagem de Valor inclui explicitamente Assistência de Enfermagem em Ventilação Mecânica e Assistência de Enfermagem em Monitorização Hemodinâmica.

Para conhecer a pós-graduação e ver como o curso aprofunda a prática assistencial e a segurança do paciente em cenários críticos, acesse AQUI.

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