Da superlotação ao controle assistencial: o papel da classificação de risco em picos de demanda e eventos de massa

A superlotação nas portas de urgência é um problema de gestão, mas vira rapidamente um problema assistencial. Quando a demanda ultrapassa a capacidade instalada, o serviço passa a operar em modo reativo: fila cresce, risco clínico se mistura na mesma sala de espera e a equipe perde previsibilidade sobre quem precisa de intervenção imediata.
Esse cenário fica mais crítico quando a urgência deixa de ser rotina e vira pico. Em incidentes com múltiplas vítimas, o desequilíbrio entre necessidade e recurso não é exceção, é a regra, e exige mudança de protocolo, comando e comunicação para evitar colapso.
O Brasil convive com fontes recorrentes de demanda aguda que podem disparar esses picos, como sinistros de trânsito. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 73.156 sinistros em rodovias federais em 2024, com 84.526 feridos e 6.160 mortes, segundo balanço divulgado em abril de 2025.
Além do trânsito, há pressão de eventos de massa e situações com potencial de emergência em saúde pública. O Ministério da Saúde (MS) estabelece diretrizes nacionais para planejamento e coordenação de ações de vigilância e assistência em eventos de massa, com definição de responsabilidades e mecanismos de controle durante todas as fases do evento.
Classificação de risco organiza o que a fila esconde
A classificação de risco não é triagem burocrática. É um instrumento de ordenação do fluxo clínico, com priorização pelo potencial de gravidade, e funciona como um sistema de regulação da demanda na urgência. No protocolo de acolhimento com classificação de risco disponibilizado na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, a diretriz é explícita: a classificação deve “melhor organizar o fluxo” e produzir atendimento “rápido e efetivo”, sem ser instrumento de diagnóstico.
Na prática, isso significa três movimentos de gestão que mudam o jogo.
O primeiro é separar tempo de chegada de tempo de risco. Sem isso, o serviço atende por ordem de porta, e não por prioridade clínica.
O segundo é transformar a classificação em tomada de decisão, não em carimbo. O protocolo descreve escuta qualificada e decisão baseada em protocolo aliada ao julgamento clínico do enfermeiro, integrando equipe multiprofissional.
O terceiro é desenhar fluxos com a rede, e não apenas com a unidade. A própria diretriz do MS aponta a necessidade de construir fluxos considerando os serviços da rede de assistência, porque o gargalo raramente se resolve apenas dentro da sala de emergência.
Eventos de massa exigem outra lógica de triagem e comando
Em incidentes com múltiplas vítimas, o objetivo não é apenas atender mais rápido. É alocar recursos escassos para maximizar benefício coletivo, com critérios claros de ativação e mudança de rotina.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve que, quando o plano de gerenciamento de incidentes com múltiplas vítimas é ativado, deve-se usar ferramenta específica de triagem para MCI, porque as necessidades excedem os recursos. A OMS também reforça que a triagem efetiva melhora a organização do fluxo e reduz o caos, ao dar à equipe senso de controle operacional.
No Brasil, o MS orienta a preparação por meio de planos de contingência. Em página institucional sobre resposta a emergências, o MS define que o Plano de Contingência é um pré-planejamento que subsidia o Plano de Ação do Evento, com responsabilidades, prioridades e emprego de recursos, e recomenda testagem por simulados e atualização com lições aprendidas.
Para a gestão da emergência, a implicação é direta: não existe resposta bem-sucedida sem preparação testada. Protocolos precisam ser treinados, e treinamentos precisam ser mensurados.
Como evitar colapso do fluxo em cinco decisões operacionais
- Definir gatilhos de escalonamento
A unidade precisa de critérios objetivos para declarar pico assistencial e acionar mudança de configuração, como reforço de equipe, abertura de área de estabilização, redirecionamento de entradas e acionamento de retaguarda. Em eventos de massa, esses gatilhos devem estar explícitos no plano. - Separar “porta de entrada” de “área de cuidado”
Classificar na entrada não resolve se não houver área adequada para cada categoria de risco. A triagem precisa estar amarrada a destinos assistenciais claros, com rotas de evacuação interna e responsabilidades definidas. - Construir um modelo de filas por risco, não por especialidade
Em colapso, especialidade vira luxo. O fluxo deve ser orientado por risco e tempo-resposta. Isso inclui protocolos para dor torácica, AVC, sepse e trauma, com trilhas assistenciais que reduzam dependência de decisões ad hoc. - Padronizar comunicação e comando
Em MCI, o problema não é apenas clínico, é de coordenação. A OMS recomenda que o plano contenha critérios claros para mudar da triagem de rotina para a triagem de incidente. Sem comando e comunicação padronizados, o serviço perde consistência justamente quando mais precisa. - Treinar, simular e revisar
Planos não testados falham no primeiro estresse real. O MS orienta que planos de contingência sejam testados por simulados e modificados quando necessário, inclusive durante a resposta, com base na evolução do evento.
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