Ele desenvolveu um teste que evita cirurgias desnecessárias e já faturou R$ 11 milhões

Dezenas de milhares de procedimentos médicos desnecessários poderiam ser evitados todos os anos no Brasil. Entre eles, cirurgias para nódulos de tireoide realizadas mesmo quando não há certeza de que o quadro exige intervenção.
Foi para enfrentar esse problema que nasceu a Onkos, uma deep tech brasileira que combina biologia molecular e inteligência artificial para reduzir incertezas diagnósticas e evitar tratamentos que poderiam ser poupados.
A empresa desenvolveu um exame molecular chamado mir-THYpe full, capaz de identificar e classificar nódulos de tireoide com mais precisão. Na prática, a tecnologia pode evitar até 75% das cirurgias hoje realizadas sem necessidade, preservando a qualidade de vida dos pacientes e reduzindo custos para os sistemas de saúde público e privado.
A Onkos foi fundada em 2018, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, pelo biólogo Marcos Santos, formado pela Unicamp e com trajetória acadêmica construída na área de oncologia.
“O plano inicial era seguir carreira na universidade. Empreender nunca foi um objetivo”, conta.
A frustração surgiu quando ele percebeu que grande parte da ciência produzida ficava restrita a artigos e publicações, sem impacto direto na vida das pessoas.
A migração para o setor privado aconteceu sem que Marcos deixasse de atuar como cientista. Foi nesse ambiente que o especialista passou a trabalhar com testes moleculares e genéticos aplicados à oncologia e começou a enxergar caminhos fora da academia.
A origem do problema
Em 2014, durante uma conversa informal com um colega médico, Marcos entendeu que muitos pacientes com nódulos de tireoide estavam sendo operados sem que houvesse certeza de que o nódulo era maligno. A cirurgia acabava sendo usada como forma de diagnóstico.
“Isso é uma limitação da técnica, não é porque o médico é ruim. Ele simplesmente não tem informação suficiente para afirmar se o nódulo é benigno ou maligno”, afirma.
A constatação de que cirurgias eram feitas por falta de ferramentas diagnósticas mais precisas foi o ponto de partida para o desenvolvimento da tecnologia que se tornaria o principal produto da empresa.
Com a aproximação do ecossistema de inovação, Marcos conheceu instrumentos de fomento à pesquisa aplicada, como o PIPE da FAPESP, voltado a empresas nascentes. O projeto foi aprovado, ele deixou o emprego e passou a dedicar integralmente à Onkos.
Entre 2015 e 2017, a empresa viveu sua fase de pesquisa e desenvolvimento. O exame foi lançado comercialmente no início de 2018. Nos primeiros anos, Marcos foi o único funcionário da startup. Atualmente, conta com 51 funcionários.
Uma questão frequente
O desafio que a Onkos resolve é mais comum do que parece. Segundo o biólogo, cerca de 60% da população vai identificar, em algum momento da vida, um nódulo na tireoide.
Hoje, a investigação costuma começar em exames de rotina e pode resultar em três diagnósticos. Benigno, maligno ou indeterminado. Os dois primeiros são claros. O terceiro não é e responde por 25% a 30% dos casos.
Quando o resultado é indeterminado, o médico não tem informação suficiente para tomar uma decisão definitiva. Diante da dúvida, o sistema acaba optando pelo excesso e o paciente é encaminhado para uma cirurgia diagnóstica.
É nesse ponto que o problema se agrava. Cerca de 80% dessas cirurgias revelam, depois, que os nódulos eram benignos.
“No Brasil, isso representa aproximadamente 50 mil casos por ano, dos quais entre 35 mil e 40 mil pacientes poderiam ter evitado a cirurgia”, diz.
Como a tecnologia funciona
A tecnologia da Onkos entra antes da cirurgia. A empresa utiliza a mesma amostra já coletada na biópsia inicial e faz uma análise molecular mais profunda. Assim, o médico consegue decidir com mais segurança se a cirurgia pode ser evitada ou se ela é realmente necessária.
Marcos afirma que esse desafio não é exclusivo do Brasil nem de países em desenvolvimento. “Ele também está presente em mercados como Estados Unidos, Alemanha e Japão”.
No mundo, apenas quatro empresas oferecem tecnologias capazes de responder a essa mesma pergunta diagnóstica, três delas nos EUA. Fora do mercado americano, a Onkos é hoje a única empresa a disponibilizar esse tipo de solução.
O primeiro diferencial destacado por Marcos é o custo. Enquanto testes americanos custam entre R$ 25 mil e R$ 35 mil, o exame da Onkos gira em torno R$ 4.900. O segundo é operacional. “Não há necessidade de uma nova biópsia. Trabalhamos com a amostra já existente, mesmo que ela tenha até cinco anos, evitando um novo procedimento doloroso para o paciente”, pontua.
A empresa trabalha com dois modelos de negócio. No B2B, a Onkos atende hospitais e laboratórios, que vendem o exame ao paciente, enviam a amostra para análise e recebem o laudo. No B2C, o exame é prescrito pelo médico e a própria empresa coordena todo o processo com o paciente.
Fora do Brasil, a atuação ocorre principalmente por meio de parceiros locais, mas todas as análises são realizadas no laboratório em Ribeirão Preto.
Próximos passos
A empresa entrou no ranking EXAME Negócios em Expansão, na categoria de companhias com faturamento entre R$ 5 milhões e R$ 30 milhões. Em 2024, registrou receita líquida de R$ 7,35 milhões, um crescimento de 36% em relação ao ano anterior.
Já no ano passado, a startup cresceu 40% em relação ao ano anterior e fechou o período com faturamento de R$ 11 milhões. Para 2026, a projeção é dobrar a receita e alcançar R$ 22 milhões.
Atualmente, 10% da receita já vem do exterior, com meta de chegar a 20% no próximo ano. A empresa atua em mais de 30 países e abriu um escritório em Barcelona para acelerar a expansão na Europa.
Outro movimento importante é a submissão do exame ao SUS. A documentação está em fase final e deve ser protocolada até o fim de março. Caso o teste seja incorporado, a estimativa é de uma economia de até R$ 385 milhões para o sistema de saúde brasileiro.
Por fim, Marcos cita a ampliação do portfólio. No ano passado, a Onkos foi aprovada no programa Mais Inovação Brasil da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, para atuar na área de câncer de mama. O objetivo é prever o risco de recorrência da doença no período de 5 a 10 anos com base em marcadores moleculares, e auxiliar os médicos na decisão sobre a necessidade ou não de quimioterapia adjuvante.
“Nosso objetivo sempre foi ver a ciência sair do papel e gerar impacto real na vida das pessoas. Crescer, para nós, significa escalar esse impacto com eficiência para os sistemas de saúde”, finaliza o fundador da Onkos.
O que é o ranking Negócios em Expansão
O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.
Em 2025, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2024.
A análise considerou negócios com faturamento anual entre 2 milhões e 600 milhões de reais.
São 470 empresas que criam produtos e soluções inovadoras, conquistam mercados e empregam milhares de brasileiros.



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