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USP cria enxaguante de saliva artificial para pacientes em tratamento de câncer

Uma saliva artificial desenvolvida a partir de uma proteína extraída da cana-de-açúcar pode ajudar a proteger os dentes de pacientes em tratamento de câncer de cabeça e pescoço, especialmente daqueles que sofrem efeitos da radioterapia na região da boca.

Nesse tipo de terapia, é comum que glândulas salivares sejam danificadas, reduzindo a produção de saliva e deixando o esmalte mais vulnerável a infecções e cáries agressivas.

A proteína, chamada CaneCPI-5, foi modificada em laboratório e incorporada a um enxaguante bucal com efeito de saliva artificial. Segundo os pesquisadores, ela funciona como um tipo de barreira protetora, ajudando a preservar o esmalte dentário mesmo em condições de alta acidez.

A saliva exerce um papel essencial na saúde da boca, porque ajuda a neutralizar ácidos, controlar bactérias e evitar a perda de minerais dos dentes. Quando a produção diminui, surge a xerostomia, que é a sensação persistente de boca seca que pode provocar dor, feridas e maior risco de cáries.

“Nós usamos substâncias que vão reformular a composição das proteínas que se ligam aos dentes”, explica Marília Afonso Rabelo Buzalaf, professora da FOB-USP e coordenadora do projeto, em comunicado. Ela afirma que a proposta é criar uma película protetora semelhante à que se forma naturalmente na superfície dentária.

A pesquisa, publicada no Journal of Dentistry em outubro de 2025, foi realizada na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) durante o doutorado de Natara Dias Gomes da Silva.

O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), da Universidade da Califórnia em São Francisco, nos Estados Unidos, e da Yonsei University College of Dentistry, na Coreia do Sul.

Como a proteína age nos dentes?

Nos testes iniciais, os cientistas aplicaram a solução com CaneCPI-5 em pequenos fragmentos de dentes de animais, uma vez ao dia, durante um minuto. O objetivo era observar se a proteína conseguia aderir ao esmalte e reforçar sua resistência.

“Conseguimos desenvolver um processo em que a CaneCPI-5 se liga diretamente ao esmalte dos dentes, contribuindo para que fiquem mais resistentes à ação dos ácidos produzidos pelas bactérias”, afirma Natara.

Os dados mostraram que o efeito da proteína foi ainda maior quando combinada com flúor e xilitol. Nessa formulação, o spray reduziu a atividade bacteriana e diminuiu a desmineralização, processo em que o dente perde cálcio e fosfato e se torna mais suscetível a cáries.

A descoberta chama atenção porque pacientes tratados com radioterapia na região da cabeça e pescoço ainda não dispõem de produtos específicos capazes de prevenir as cáries severas que podem surgir após o tratamento.

“A saliva artificial melhora a sensação de boca seca e as feridas. Isso ajuda no desconforto e também a combater as bactérias”, diz Marília. Ela explica que, em alguns casos, o uso pode ser temporário, mas em outros é permanente, quando há perda definitiva da capacidade de produzir saliva.

A CaneCPI-5, segundo o estudo, é o primeiro produto a explorar diretamente o conceito da película adquirida, uma camada protetora natural que se forma rapidamente sobre o esmalte.

Próximos passos

A patente da proteína já foi depositada, mas o desafio agora é ampliar a produção e encontrar empresas interessadas em levar a tecnologia adiante.

“Nós já fizemos testes com solução para bochecho, gel e até um filme que se dissolve na língua”, adianta a pesquisadora. Segundo ela, o grupo pretende continuar explorando combinações com outras substâncias, como vitamina E, para facilitar o uso do produto em casa.

A expectativa dos autores é que, no futuro, a saliva artificial com CaneCPI-5 possa oferecer uma alternativa mais eficaz para proteger dentes de pacientes que enfrentam não apenas o câncer, mas também as complicações duradouras que o tratamento pode deixar na saúde bucal.

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